Lendas do Velho Chico em Januária: cultura, memória e vida às margens do rio

Em Januária, o Rio São Francisco não é apenas paisagem. Ele é memória, linguagem, imaginário e presença. Não por acaso, o rio também é chamado de Opará, palavra de origem indígena registrada em fontes oficiais com o sentido de “rio-mar” — uma definição que ajuda a explicar sua grandeza e o lugar que ocupa na vida das cidades ribeirinhas. O próprio IEPHA, em inventário feito com a Unimontes, incluiu Januária entre os municípios pesquisados para registrar lugares, celebrações, formas de expressão e saberes das comunidades do vale do São Francisco.

Falar do Velho Chico em Januária é falar de um rio que moldou a cidade por dentro. Ele ajudou a construir rotas, trabalho, comércio, encontros e um modo de viver que ainda hoje marca a identidade local. É por isso que, quando alguém visita Januária de verdade, percebe rápido: compreender a cidade passa por compreender o rio.

O rio que moldou Januária

Durante muito tempo, o São Francisco foi estrada de água para o interior do Brasil. Em 2025, o governo federal voltou a destacar o Vapor Benjamim Guimarães como símbolo da navegação do rio, lembrando que a embarcação foi construída em 1913, levada ao São Francisco na década de 1920 e usada no transporte de passageiros e cargas entre Pirapora e Juazeiro, antes de se tornar atração turística.

No caso de Januária, essa história tem peso especial. Um estudo sobre cultura popular no município se refere à cidade como cidade portuária de Januária, situada às margens do São Francisco, e recupera inclusive uma passagem de Grande Sertão: Veredas em que aparece a espera pelo vapor no porto. Em outra reportagem, o Globo Ecologia registra que Guimarães Rosa citou Januária e o Rio São Francisco em sua obra, reforçando como a paisagem, os sertanejos e o universo ribeirinho entraram também no imaginário literário brasileiro.

Esse passado ajuda a entender por que o rio não é apenas um detalhe geográfico. Ele foi circulação, sustento e referência de mundo. O Velho Chico conectava pessoas, levava mercadorias, trazia notícias e fazia do cais um ponto de vida. Em cidades como Januária, a relação com o rio nunca foi decorativa; sempre foi estrutural.

As lendas do Velho Chico

Mas o São Francisco não corre só em mapas e memórias. Ele também corre nas histórias contadas de geração em geração. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco registra que personagens como Mãe d’Água, Caboclo d’Água e Minhocão fazem parte do folclore e da cultura popular das pessoas que vivem próximas ou às margens do rio.

Entre essas figuras, uma das mais conhecidas é o Nego d’Água. Segundo a lenda registrada pelo CBHSF, ele habita as profundezas do rio, assusta pescadores e lavadeiras com suas gargalhadas e costuma virar a canoa de quem pesca de forma prejudicial ao meio ambiente ou durante a piracema. Como toda lenda ribeirinha, sua força não está em ser explicação científica, mas em traduzir, por imagens e medo, uma relação de respeito com as águas.

A Mãe d’Água aparece ligada a outra narrativa muito conhecida: a do sono do Velho Chico. Nessa tradição oral, o rio adormece à meia-noite e, nesse momento, a mãe d’água sai das águas e enxuga os cabelos. O texto do CBHSF deixa claro que se trata de lenda popular, marcada por encantamento e temor, como tantas histórias transmitidas nas comunidades do Médio São Francisco.

Já o Minhocão é descrito pelo CBHSF como uma serpente gigantesca, fluvial e subterrânea, que viveria no rio e seria capaz de se mover por baixo da terra, chegando até as cidades. Na tradição popular, ele aparece como explicação para desmoronamentos, grutas nas barrancas, naufrágios e outros fenômenos que, no imaginário ribeirinho, ganham rosto e força mítica.

Cultura barranqueira: um jeito de viver o rio

Essas lendas não surgem do nada. Elas fazem parte de uma cultura mais ampla, construída por gerações que viveram em relação direta com o São Francisco. O inventário cultural do IEPHA mostra que o objetivo do trabalho foi justamente registrar referências culturais das comunidades ribeirinhas, incluindo saberes, fazeres, celebrações e formas de expressão presentes em municípios como Januária.

Essa identidade também aparece no próprio vocabulário da cidade. Em 2022, a Prefeitura de Januária divulgou o Sarau “Literatura Barranqueira”, com foco na produção literária local e na valorização das tradições, saberes e história do município. O nome do evento não é casual: ele reconhece uma cultura que nasce das barrancas do rio, da oralidade, da memória e da experiência de viver perto das águas.

Na produção acadêmica sobre Januária, essa relação aparece de forma recorrente. O estudo sobre a cultura popular local afirma que a cidade carrega marcas de múltiplos tempos e que viu escoar, do alto das barrancas, a vida do grande rio. O mesmo texto lembra que a região do Opará, o “rio-mar”, reúne vestígios antigos, tradições orais e manifestações culturais que ajudam a entender a profundidade histórica e simbólica do território.

O Velho Chico continua contando histórias

É por isso que o Velho Chico continua tão central em Januária. Ele está na memória da navegação, na literatura, nas lendas, nas expressões culturais e no jeito como a cidade se reconhece. Mesmo quando o visitante chega pensando apenas em paisagem ou passeio, logo percebe que há algo maior correndo ali: uma herança viva, que mistura história, imaginação e pertencimento.

Conhecer Januária sem ouvir o rio seria conhecer só uma parte dela. Porque o São Francisco não aparece apenas como cenário. Ele organiza lembranças, inspira causos, sustenta identidades e transforma a cidade em uma experiência mais profunda. No fim, talvez seja isso que torne o Velho Chico tão inesquecível: ele não passa por Januária. Ele habita Januária.

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